quinta-feira, novembro 24, 2011

Eu peço vistas



Na véspera da votação do primeiro turno da campanha eleitoral passada, um sábado, saí para caminhar no complexo Ayrton Senna, como faço com frequência, vestido com uma camiseta regata amarela. Por pura coincidência, eu havia acabado de comprá-la. Hoje continua sendo a segunda roupa amarela que tenho no meu guarda-roupa até hoje.



Por estranha coincidência, até as camisas da Seleção brasileira que tenho são azuis (as únicas que tenho, já que não gosto de usar camisa de time), uma vez que elas são promocionais da empresa onde trabalho, o Grupo Folha, que tem o azul como marca. E acho que minha cor preferida é azul, pois a maioria das minhas roupas é na cor azul, inclusive as de baixo (como diria meu pai).



Sem me atentar para a acirrada disputa eleitoral dividida entre as cores amarela e vermelha, naquele dia saí com minha camiseta amarela, arrancando olhares repreensivos de uns e de euforia de outros, a ponto de eu pensar que algo estava errado comigo. Só me atentei para a situação quando uma conhecida me abordou em voz alta no meio da rua: “Você amarelou? Eu não acredito que você vai votar no amarelo...”.



A campanha para o Governo do Estado havia se tornado em algo como a disputa dos bois em Parintins, onde a briga é divida entre os bois azul (Caprichoso) e vermelho (Garantido). Lá ninguém ousa a falar o nome do adversário. No máximo fala-se a cor ou se refere ao adversário como “o contrário”.



Em Roraima, a disputa eleitoral foi dividida entre o vermelho (Neudo Campos) e o amarelo (Anchieta Junior). Eram colorações que não se misturavam, feito água e óleo, e a cor da roupa tornou-se determinante para saber quem estava com quem nas urnas.



Não apenas a cidade e o interior ficaram divididos pelas cores, mas grupos de amigos, famílias, local de trabalho, escolas... Tudo passou a ter uma coloração política até o fim do segundo turno, cujo resultado é conhecedor de todos.



Recordo que, naquele momento, o artigo que representou bem essa polêmica realidade foi o artigo da Paula Cruz, diretora do Grupo Folha, intitulado “Eleições e o marketing de Hitler”.



Dizia um trecho do texto: “O que aconteceu em Roraima? Um dia estava em uma sorveteria e vi duas crianças brincando, cada um vestido de uma determinada cor. De repente, a mãe de um o chamou e falou no ouvido da criança e este voltou pegou seu brinquedo e saiu. Sem entender, a outra criança perguntou se ele já ia embora e, com a inocência típica das crianças, ele respondeu: - Minha mãe disse que eu não posso brincar com você, pois se você ta vestido de.... é porque você não presta”.



Passado tudo isso, vejo hoje magistrados dizendo que a distribuição de camisas de determina cor, na campanha passada, não teve a mínima repercussão nem influenciou o voto das pessoas. É como se estas pessoas estivessem acabado de chegar de Marte.



Então, nobres leitores, eu peço vistas para reavaliar meus conceitos...

(Artigo publicado na edição impressa de hoje da Folha)

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