quarta-feira, julho 15, 2015

Críticos dos críticos


 Jessé Souza*


Quando não havia internet, muito menos rede social, os ataques raivosos contra críticas muitas vezes ocorriam em lugares públicos. Ou eram enviadas cartas ou feitas ligações anônimas de xingamentos contra posições críticas. Mas já foi bem pior em Roraima. Passamos pela morte de um jornalista, pela derrubada do prédio de um jornal, pelo assassinato de um prefeito e de um auditor fiscal. Também enfrentamos um período sombrio de cemitérios clandestinos e torturas policiais. Tudo isso na década de 80.

Então chegou a internet. Os ataques passaram a chegar rápidos por e-mails. Logo vieram as redes sociais, provocando uma mudança espetacular em todos os sentidos. Os ataques só pelo fato de se exercer o papel da crítica tornaram-se corriqueiros. E não apenas para os jornalistas, mas para qualquer pessoa que se metesse a criticar políticos, governos, situações erradas, empresas irresponsáveis e até mesmo comportamentos da sociedade.

Surgiram os críticos dos críticos, os supercríticos que se incomodam com quem exerce sua cidadania por meio da crítica, que é o instrumento legal, democrático e de pressão de quem não tem o poder da caneta nem do parlamento. A crítica é a arma do cidadão não apenas para cobrar, mas para ter algum instrumento a monitorar o poder.

A ação de quem ataca qualquer crítico passou a ser tão voraz que muitos sentem medo de expressar suas opiniões abertamente nas redes sociais, ainda que dentro da lei e da liberdade de expressão que a Constituição Federal garante a qualquer cidadão brasileiro ou de quem vive no Brasil.

Nessa onda de abominar o papel da crítica e o crítico, os críticos dos críticos não querem permitir que os cidadãos tenham sua opinião própria contra algo que incomode individualmente o cidadão ou a coletividade. Sempre há os que procuram desmerecer ou tentar desautorizar as pessoas a exercerem o papel da crítica, como se esse instrumento fosse algo “feio”, “errado”, “vergonhoso”, “irresponsável” ou “coisa de comunista”.

Até os jovens e adolescentes, a quem cabe o papel necessário da rebeldia e da contestação, sentem-se com receio de se posicionar, pois estão sujeitos a serem aviltados tão somente pelo fato de defenderem suas posições ou de criticarem algo, alguém ou algum poder.

É preciso que a sociedade esteja atenta a este movimento de minar a crítica como instrumento de oxigenação da democracia e de monitorar o poder e a sociedade mediante seus direitos e deveres. A crítica não pode desaparecer ou esmorecer. Ela é a centelha de uma sociedade que deseja caminhar para melhor. Sem crítica, os corruptos sentem-se livres e o fascismo avança.

P.S.: Artigo publicado originalmente na Folha de Boa Vista

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com

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